Bradou, na nota preliminar
do seu monumental
Os Sertões, Euclides da Cunha:
"E foi, na significação integral da palavra,
um crime.
Denunciemo-lo"
O que se faz hoje na faixa de Gaza é uma sangria,
não à Democracia, não à Liberdade, não à Razão:
faz-se sangria da Humanidade.
Não bastasse um muro que revigora a Apartheid,
não bastasse separar uma nação em dois pontos,
o que Israel faz na palestina é uma chacina,
uma monstruosidade, só comparável ao que
o Brasil fez contra Belo Monte e o que o fascismo
capitalista fez na Europa.
Talvez nem isso! Hitler foi O Mal, tudo que a
nossa história fez foi mostrar O Mal, subjugando
e matando em câmaras de gás os judeus!
Por acaso há diferença no que faz agora Israel?
Pergunto-me: como classificar barbáries?
Como compará-las?
O genocídio feito pelos ibéricos e os anglo-saxões
na América é menor do que é feito hoje na
faixa de gaza?
O extermínio perpetrado contra os judeus
é desculpa para que façam o mesmo contra
outra etnia mais fraca?
como comparar barbáries?
por acaso o extermínio de uma tribo irmã
(árabes e judeus são semitas, filhos do mesmo
pai, mas de diferentes mães, Agah e Sarah,
todos nós, aculturados ou pelo sangue,
filhos do pai das nações) é menos cruel
do que o extermínio de alguém que não te
é parente, como o nazi-fascismo fez na europa,
e o mercantilismo europeu na América e na África?
como contabilizar as vítimas?
por corpos, por traumas, por violações de mulheres,
pela orfandade, pela memória do que fica?
quem fará o
mea culpa?
o nosso crime imperdoável nos relegou pelo menos
duas obras primas:
Os Sertões e
Grande sertão:veredas, o Estado afogou os destroços de Canudos
para que se esquecesse do que cometemos a nós mesmos!
Mas ficou o texto, talvez o livro mais editado da história
do Brasil e o livro mais excepcional de nossa história,
respectivamente.
A poesia fica, denunciando, sentindo, se não explica,
pelo menos resgata a memória dos mutilados, dos
mortos, das estupradas, dos órfãos, a poesia fica
e nos faz lembrar a ferida nunca cicatrizada,
pois a barbárie não é um crime,
é uma insurreição do homem contra
a Humanidade.
Nós nos lembramos, e também não nos esqueceremos
da barbárie em Gaza.
Da barbárie em Gana.
Da barbárie em Libéria.
Da barbárie em Haiti.
Da barbárie.